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Cronologia
1547 - Nasce Miguel de Cervantes Saavedra
1551 - O pai, Rodrigo, é preso por causa de dívidas de jogo
1566 - A família instala-se em Madri
1569 - Após incidente no qual teria ferido um homem, deixa Madri e vai morar em Roma
1571 - Participa da batalha de Lepanto, contra os turcos. Ferido em combate, tem a mão esquerda inutilizada
1575 - Capturado por corsários, é levado para Argel, com seu irmão Rodrigo, onde fica cinco anos em cativeiro
1581 - Vai para Lisboa, onde escreve peças de teatro
1584 - De um romance com Ana Franca, nasce Isabel de Saavedra. Casa-se com Catalina de Palacios Salazar
1585 - Publica La galatea. Morte do pai
1587 - É nomeado comissário real encarregado de recolher azeite e trigo para a Armada Invencível
1593 - Morte da mãe. Publicação do romance La casa de los celos
1597 - É preso em Sevilha, após ser condenado a pagar dívida exorbitante
1598 - Deixa a prisão. Morte de Ana Franca
1605 - É publicada a primeira parte de Dom Quixote
1613 - Ingressa na Ordem Terceira de São Francisco. Publicação de Novelas exemplares
1614 - Surge uma continuação de Dom Quixote, escrita por Avellaneda
1615 - Cervantes publica a segunda parte de Dom Quixote
1616 - Morre em Madrid, no dia 23 de abril
http://pt.wikipedia.org/wiki/Miguel_de_Cervantes#Cronologia
"MIGUEL CERVANTES"
por Gomes Leal
Miguel de Cervantes Saavedra o mais destacado escritor espanhol e uma das grandes figuras da literatura de todos os tiempos. Retrato de Eduardo Balaca. Miguel de Cervantes Saavedra foi um génio, e pode-se dizer mesmo o génio do Bom Senso. Na sua obra, cujo herói é um dementado, vibram-se profundos gilvazes a todas as demências humanas: e ela não fere tão vivamente o espírito de todos só porque é cáustica: mas sim porque é causticamente, crudelissimamente, sensata. Daí todo o seu sucesso. Daí toda a perdurabilidade desta obra que não teria um carácter tão imutável se fosse unicamente alegre, ou se fosse simplesmente imaginosa. A imaginação é um grande dom, que tem uma larga influência nos povos infantis: mas o bom senso é uma faculdade rara, quando aliada à imaginação, que se esculpe imperecivelmente nos povos lógicos, nos povos racionalistas, nos povos reflectidos das civilizações adiantadas. Quando, porém, à imaginação e ao bom senso se acrescenta a irresistível, a demolidora Ironia, essa obra toma um carácter mais imutável do que o bronze de Corinto, ou a estátua grega de um mestre, feita com mármore pentélico. Assim se explica a acolhida que ela tem ainda hoje, como no tempo de Filipe III, e que continuará a alcançar dos nossos pósteros, quando já não restar na memória do homem um hexâmetro grego de Homero, nem um versículo hebraico do Pentateuco de Moisés. Acrescente-se a isto que o seu herói tem o carácter profundamente objectivo, na sua subjectividade, e ter-se-á explicado as causas que fizeram deste livro um monumento verdadeiramente cosmopolita e humano. Neste género, com tais requisitos, só uma obra conhecemos que rivalize com D. Quixote, e que talvez para os espíritos delicados e subtis, se avantaja ainda: é as Viagens de Gulliver, de Swift. Nesta obra tudo tem um carácter de mais originalidade e de mais subtileza. Sendo eminentemente humana, isto é, sendo uma sátira dum carácter verdadeiramente universal, tem talvez como vantagem para nós, empregar um humour muito mais ático, — se é possível fazer ático sinónimo de delicado, — em vez do grosso sal de cozinha de que em largas doses se serve Cervantes, como condimento. A sua imaginação é decerto muito mais rica: e em bom senso cáustico não lhe fica também, em nada, inferior. Falta porém ao seu herói aquele entusiasmo simpático do D. Quixote , que tanto nos prende a ele, mau grado todas as suas demências, e todas as suas insânias cavaleirosas e andantes. Falta-lhe também aquele já hoje lendário escudeiro de Sancho Pança, cavalgando no seu lendário sendeiro, através dos montes e dos vales de Espanha, atrás do seu cavaleiro, que vai em demanda de gigantes e do elmo de Mambrino: tipo patusco e bon vivant, folião e pantagruélico, tão dementado como positivo, tão burlesco como escudeiro leal, símbolo de burguês de todas as eras, e do materialismo ventrúdo de todos os tempos. A firmeza de traços com que estão pintadas, à Velásquez, estas duas figuras típicas, no meio dos episódios e dos vários acidentes, sem nunca se desmentirem, nem nunca se desmancharem, é decerto dum relevo cómico, que os não torna inferiores, antes os sobreleva aos personagens do teatro de Lope de Vega, ou de Calderón de la Barca. O herói de Swift é um aventureiro também: não tem, contudo, o mesmo arranque, a mesma viveza, a mesma chispa peninsular do manchego.É sempre um saxão: e guarda sempre, como este povo, a sua frieza reflectida, o seu espirito de exame, e de ironia tranquila. Assim como, D. Quixote, produto do ibero, povo brigador e aventuroso, é um cavaleiro de aventuras, da mesma forma. Gulliver, produto do saxão navegador, é um marinheiro audaz, e um viajante intrépido, à busca do incognoscível. O aventureiro saxão não é, contudo, um dementado. Conserva no meio dos seus perigos, e dos riscos estranhos, a ingenuidade um tanto feminil desses louros ou ruivos marinheiros bretões, de pescoço branco e de músculos de aço, que sulcam as ondas de todos os mares, conservando na memória e no coração os traços da sua cabana, nas verdes serranias do Erin, ou da Escócia nevoenta, cheia de lendas e de lagos, de onde se evapora a neblina.Mas essa ingenuidade não é destituída de malícia, nem da mordacidade humorística, tão particular ao saxão. Ambos eles, no entanto, têm o supremo mérito filosófico e ético de, representando cada um, em particular, o tipo especial da sua raça, simbolizarem, em geral, os afectos e as paixões comuns de toda a humanidade. Como Fausto, como D. João, como Hamlet, como o Misantropo, são eternos, e mais perduráveis que a grande pirâmide do Faraó Ramsés no deserto de Menfis, no Egipto, porque são universais, são humanos. Não é nosso intento, alongarmo-nos, agora, na análise crítica da obra capital de Cervantes. Convidados, amavelmente, por um nosso amigo dos bancos colegiais, D. José Carcomo Lobo, tradutor desta obra, e tradutor dela tão fiel e vernáculo, quanto o seu talento é modesto e retraído, e pelo seu esclarecido editor, o sr. Fidalgo, a delinear os principais traços biográficos de Miguel de Cervantes, vamos desempenharmo-nos deste encargo, resumindo os factos capitães desta vida tão acidentada.
Historia de D. Quixote de la Mancha / por Miguel Cervantes de Saavedra; [grav. de Marti]. – Lisboa: Typ. Universal, 1853BN L. 3775 V. Nasceu Miguel de Cervantes Saavedra, em Alcalá de Henares, de uma família nobre, e cheia de pergaminhos de avós: mas pouco provida de bens móveis e imóveis. Como Homero, a quem sete cidades da Grécia: Smirna, Chio, Colophon, Salamina, Rodes, Argos, Atenas, — se jactavam de ter sido berço, sete povoações de Espanha disputaram a Alcalá de Henares a glória de ser a pátria que ouviu os vagidos de Cervantes na puerícia: quando ele, em vez de idear o seu D. Quixote, tratava apenas de premir com os lábios as glândulas mamárias maternais, no seu primeiro instinto de nutrição e de conservação da espécie. Este facto, porém, repetido da lenda grega, tem seus visos mais de imitação erudita e académica, pelo seu número histórico de sete, do que um facto espontâneo e autêntico, a que possamos dar crédito. Como a título porém de curiosidade geográfica, e para nos desempenharmos do encargo de biógrafos, daremos os nomes das ditas povoações ambiciosas de honrarias. São elas: — Madrid, Sevilha, Lucena, Toledo, Esquivias, Consuegra, e Alcácer de S. João. Só porém Alcalá de Henares foi a venturosa. Só ela foi pátria de Cervantes, só ela o ouviu vagir nas faixas infantis, quando ainda D. Quixote e Sancho Pança não só não trotavam, — coisa que jamais conseguiram — pelos montes e pelos vales de Espanha; mas nem mesmo pelo cérebro do génio infantil, que ainda não podia prognosticar as desgraças que estavam para lhe suceder: a de ser manco, e homem de letras, na Península. Nasceu, pois, em Alcalá de Henares, a 9 de Outubro de 1547. Seus pais foram D. Rodrigo, e D. Leonor de Cortinas, sendo, além disso, neto de D. João Cervantes, que foi corregedor de 0ssuna. Há dúvidas sobre se cursaria, ou não, os estudos oficiais de aquelas eras, na Universidade de Salamanca. Ainda que muitos optem pela opinião de que chegou a cursar dois anos de Universidade, nós optamos pelos que crêem que não se chegou a matricular nesta douta instituição, atendendo, além da inópia enorme da sua família — que era tal, que ele desprovido de livros se via forçado a apanhar pedaços de papel pelas ruas, como único recurso ao seu esfomeamento de ciência, — ao carácter do seu talento indisciplinado, e boémio, isento de pautas sábias, e de peias académicas.
É certo que há escritos dele pululando de achaques e de tropos retóricos do tempo: obras que ele mesmo condena no D. Quixote, além de outras que não condenou: no entanto, a imitação é sempre a primeira fase do talento impaciente por se revelar, até que lhe despontem as asas: mas o que é indubitável é que um filho da Universidade dificilmente se emanciparia da rotina clássica, depois de se ter amamentado com o leite da estética de Aristóteles, ou da retórica de Quintiliano.
O próprio prólogo do D. Quixote é uma emancipação de rebelde a todas as usanças literárias dos autores de livros daquele tempo, uma revolução literária, feita pelo escárnio.
Na própria vida aventurosa, indisciplinada, boémia, achamos a origem e os germens do D. Quixote, que é a sonora gargalhada do Meio Dia à Idade Média, que tanto amou.Essa gargalhada estrondeará nas estradas cheias de sol, nas locandas bulhentas dos arrieiros, nas tabernas do povoléu, no claustro silencioso do monge, nos paços rumorosos dos reis, na sala de cavaleiros do senhor feudal: e a esquelética figura de D. Quixote fará rir a mesma lírica donzela da Andaluzia, que só sonha com barões, cavaleiros heróicos, debaixo das suas gelosias. Sim, as próprias mulheres, elas que compreendem todos os heroísmos, rirão de D. Quixote, e a rotunda figura de Sancho Pança fará rir os teólogos reitores, nas suas cadeiras abaciais, e os lacaios e as camareiras, em roda do lar, ao serão. É que a óssea figura do cavaleiro, angulosa e lívida, com uma anatomia tuberculosa, meio heróico e meio doido, cheio de pensamentos altos e de acções burlescas, ridículo e sublime, é como que o esqueleto da Idade Média, que saiu do túmulo, vestido com armas de papelão, a combater por um ideal sublime: — só deixando na campa, por esquecimento, os lóbulos cerebrais e a Razão. E a Idade Média foi tudo isso: — foi um heroísmo dementado. Tinha de morrer, decerto, às mãos de um indisciplinado de bom senso, de um boémio de génio, que se risse dos heróis, que se risse dos doutos, que se risse das fórmulas, que se risse das academias. Ordinariamente, aqueles que na sua mocidade se isentaram do torniquete do ensino oficial e sábio, têm sido os que têm feito as grandes revoluções na arte, e que mais se têm aproximado da natureza e da verdade. Eles depois aprenderão e reflectirão. É ponto, portanto, para nós quase que assente, que Cervantes não cursou nunca a Universidade de Salamanca. Sabe-se, contudo, que teve estudos literários, e que alguma cousa aprendeu de humanidades, com o presbítero João Lopes, de Hoyos. Parece mesmo que foi seu discípulo muito dilecto, e que Cervantes era de um temperamento afável e muito querido, pois que nas exéquias mandadas celebrar pela mulher de Filipe II, Isabel de Valois, que se finara, sendo encarregado o bom presbítero da direcção literária das sentenças, epígrafes, e dísticos latinos e espanhóis, que se deviam inscrever no mausoléu, entre todos os vários autores de composições lúgubres que vieram ao concurso funerário, as composições de Cervantes foram muito recomendadas, e cobertas de encómios, pelo bom presbítero poeta, o seu velho mestre de humanidades. É possível mesmo que as composições fúnebres de Cervantes estivessem, além de muito geometricamente medidas, bastante melancólicas e próprias do assunto mortuário: nós, contudo, sempre daríamos mais por uma página cáustica e alegre do D. Quixote, de que por todos os seus epitáfios e epicédios.
Miguel de Cervantes Saavedra (Alcalá de Henares, 9 de octubre de 1547-Madrid, 23 de abril de 1616), uma pintura de 1600 atribuida a Juan de Jáuregui y Aquilán.
A poesia porém, como instrumento de vida, render-lhe-ia escassamente, se aquele génio comunicativo, meridional, expansivo e extraordinário, a alegria mais irresistível e viva do universo, que não teve ainda precedentes na vivacidade verdadeiramente árabe, nem rivais na própria ironia gaulesa, essa sua alegria esfuziante e inopinada, que tinha a irresistibilidade duma força eléctrica, não atraísse em torno de si um círculo de amigos e de íntimos entre eles o filho do duque de Atri, D. Júlio Agua Viva, jovem teólogo e letrado, que o protegeu e se lhe afeiçoou. Levou-o para seu palácio, para lhe ouvir quotidianamente as chispas da palestra, e fê-lo seu escudeiro. Não se podendo separar de Cervantes, levou-o consigo para a Itália, ao ter de partir para a corte pontifical de Paulo V, de onde viera a Madrid, como legado do pontífice, mas onde fora tratado desabridamente pelo taciturno Filipe II, esse mocho coroado. Em companhia do jovem prelado italiano, erudito, Mecenas das letras, percorreu Cervantes o Piemonte, Milão, Toscana: todas as capitais italianas mais importantes, até chegar a Roma. O renascimento literário italiano devia-se ter insculpido muito na imaginação iriada do autor do D. Quixote: e essa renascença influiu tanto no seu espírito que se afirmou nas suas obras, e tornou dele a força mais irresistível da Renascença — o Bom Senso feito coveiro, que em nome da Razão e do Bom Gosto, escavou a vala, onde fez rolar, com o pé, a carcassa heróica da Idade Média.
O génio, porém, espanhol, cavaleiroso e amigo de aventuras, levou-o, sem causa maior, a sair do palácio do erudito e hospitaleiro prelado, e a ir sentar modestamente praça de soldado raso, na companhia comandada por Marco António Colonna, na expedição que Filipe mandava a Chipre, em auxílio da República de Veneza, que o turco sultão Selim ameaçava. Desde essa data, começa a sua odisseia de desventuras, e feitos militares.
Foi tão infeliz como soldado, como mal aventurado nas letras, como desditoso funcionário de Estado. Só foi verdadeiramente grande, e o seu génio reconhecido como indisputável, depois de morto: e isso, um século depois, pelos estrangeiros, por Lord Carteret, que se encarregou de mandar publicar a vida e a crítica à obra monumental de Cervantes, a pedido, dizem, que da rainha Carolina, esposa de Jorge II de Inglaterra. É à predilecção literária, e ao bom gosto de uma mulher culta, que se deve toda a aclamação unânime dos povos chamados neolatinos e dos setentrionais, em roda de um esqueleto esquecido. É possível que a Crítica fizesse justiça mais tarde: é, porém, certo que foi o bom gosto literário de uma mulher que a apressou: e este facto deve ser registado como mais um documento da radiosa influência do elemento feminino na Arte.
Como dissemos, Cervantes arriscou-se aos lances de mais arrojo, colocou-se nos postos mais avançados: tudo porém debalde para o seu progredimento militar, pois que não passou jamais de simples soldado. Mutilado aos vinte e oito anos na célebre batalha de Lepanto, em que D. João de Áustria, irmão bastardo de Filipe II, derrotou a armada dos turcos, que eram reputados invencíveis no mar, e foi o primeiro que começou a derrocada do seu prestígio marítimo, viu-se coagido a abandonar o serviço e a dirigir-se à corte, munido dos certificados mais honrosos, não só do próprio punho de D. João de Áustria, mas de todos os chefes sob que servira, a pedir a remuneração equitativa dos seus feitos e fadigas de soldado. D. João de Áustria indicava-o ao rei para comandante de uma companhia: o duque de Sesa igualmente encarecia os serviços de Cervantes. Porque ele, ainda depois de mutilado em Lepanto, por uma bala que lhe truncara o braço esquerdo, levara o mesmo ardor, com que fazia tudo, a alistar-se às ordens do duque de Sesa, e com ele passara a Génova, a Nápoles e à Sicília. Estes atestados honoríficos dos chefes de nada lhe valeram. Tendo-se embarcado numa galera para regressar à corte, esta foi aprisionada por umas galeotas marroquinas, que o levaram para Argel, para o serralho de Dali Mami. Depois de uma tentativa de fuga abortada, Cervantes passou para o harém do rei Azan, homem feroz, que infligia as maiores atrocidades aos prisioneiros, e em quem somente Cervantes, pela sua irresistível graça, capaz de desenrugar a fronte dos deuses infernais, pode achar algum favor. Umas poucas de vezes tentou evadir-se, e essas maquinações engenhosíssimas, empreendidas para recuperar a independência e a pátria, são quase tão curiosas e acidentadas como as aventuras do seu engenhoso cavaleiro, e atestam a imaginativa de Cervantes. Todas essas evasões abortadas faziam mais atrozes, porém, ainda os ferros do cativeiro mourisco: e as atrocidades refinavam. A cada um dos prisioneiros evadidos o rei Azan mandava infligir mil e tantos açoites: só Cervantes, o chefe da conspiração abortada, escapava ao vexame infamante, graças a um bom dito, a uma réplica a tempo, cheia de chispa, no momento do rei o enviar ao suplício. Era o génio a revelar se em tudo. Era a divina faísca genial a fazer curvar, involuntariamente, os profanos ante esse condão sagrado, sob que eles se sentem subjugados, tacitamente...
Durante muito tempo remou assim nas galés do rei Azan, até que aos esforços da família, às quantias oferecidas para o seu resgate pelos padres da Santíssima Trindade, a uma subscrição promovida pelos principais mercadores de Argel, e até à generosidade do próprio pachá Azan para com ele, que lhe perdoou o resto da soma que fixara, — soma que era tão onerosa que todos os esforços reunidos não chegavam ainda a cobri-la, — deveu enfim chegar a ver o amado sol das Espanhas, e as colinas, as humanas aguas do seu país. Depois de tantas façanhas e riscos, não desistiu, porém ainda, da vida dos arraiais e dos acampamentos, cheia de bulício e de acidentes inopinados, que se coadunavam com o seu temperamento eminentemente espanhol, aventuroso, vagabundo, descuidado do futuro.
Morte de Dom QuixoteServiu nas campanhas de 1581 a 1583, na expedição que Filipe mandou aos Açores, contra o prior do Crato, que pretendia o trono de Portugal: e é por essa data que ocorreram os seus galanteios amorosos com a dama portuguesa, de quem teve uma filha natural, D. Isabel de Saavedra. Só a l2 de Dezembro de 1584 é que se desposou legitimamente com D. Catarina de Palácios Salazar y Vosnediano, dama de linhagem fidalga como ele, da casa de Esquivias. Desesperançado de passar do seu posto ínfimo de soldado, de ver remunerados os seus serviços na guerra, com um posto de acesso, pediu e obteve uma função civil. Foi nomeado comissário de fazenda em Sevilha, onde gozou alguns tempos de um certo remanso espiritual, da companhia dos homens mais preclaros nas artes e na aristocracia, onde o seu talento se expandia incontestado, e onde pode mais, a seu sabor, entregar-se, depois das suas funções civis, ao prazer intelectual da vida contemplativa. Aí publica algumas bucólicas, e algumas das suas novelas, entre elas Galatea, que é uma imitação de outras muitas do género pastoril: mas que se diferençava destas, por já nela se começar a acentuar o seu gosto pelo simbolismo, que tantos pretendem ver em D. Quixote. Escasseando-lhe os meios de vida, pelo aumento de família, voltou-se para o teatro, onde escreveu algumas composições felizes: mas que o génio eminentemente dramático de Lope de Vega fez eclipsar. A sua obra capital, porém, é o D. Quixote, obra que dizem ter sido começada na cadeia de Toboso, onde foi encerrado, acusado de peculato e concussões à Fazenda, calúnia que ele facilmente pulverizou: mas de que tirou uma vindicta própria da irritabilidade dos vates, metendo a ridículo a Mancha, e a sempre famigerada Toboso. Muitos querem ver uma grande semelhança de destinos entre Camões, o épico lusitano, e Cervantes, a encarnação do génio espanhol. Efectivamente, há uma certa afinidade de sucessos entre eles: ambos foram dois génios que encarnaram a pátria, ao mesmo tempo guerreiros e literários: ambos sofreram calúnias, doestos, e injustiças do seu tempo: ambos foram mutilados nas batalhas: ambos encarcerados: e ambos tendo que comer o pão salgado do exílio de que falou o Dante. O êxito de D. Quixote, apenas apareceu, foi colossal. A glória e a fama saudaram-no com trenos triunfais: e, no primeiro ano em que ele viu a publicidade, esgotaram-se sucessivamente, a fio, quatro edições, no meio das risadas do universo em alegria. Todos estavam em êxtase. Todos o queriam saudar, todos o felicitavam, todos o queriam contemplar: o conde de Lemos proclamava-se, ancho de satisfação, seu amigo e seu Mecenas: e os próprios estrangeiros, os franceses que vieram na comitiva do embaixador de França à corte de Espanha, para tratar das núpcias do príncipe francês com a infanta espanhola, com o seu entusiasmo gaulês, solicitaram, como graça excepcional, o favor de serem-lhe apresentados. Era a glória, a glória que vinha enfim, aquela que ele procurara nos acampamentos, nos assaltos à luz do sol, nos arraiais militares, nas palmas cénicas, e debaixo do loureiro verde consagrado a Apolo. Isto, porém, não impediu que, passada a primeira efervescência do entusiasmo, Cervantes já sexagenário, valetudinário, doente, morresse pobre e esquecido dos reis, por quem dera o sangue, dos próceres a quem dedicara composições, tendo de prover com o quotidiano labor mental a todas as necessidades materiais da vida e da família: — e tendo sido necessário que, um século depois, uma alta dama estrangeira, guiada pelo puro instinto literário, se lembrasse de desenterrar o seu nome de um olvido ingrato, já que dos seus ossos ninguém sabia deles... Durante um século inteiro todas as ervas do esquecimento cresceram e esverdearam sobre o seu esqueleto e o seu nome desprezado! Assim morreu o autor de D. Quixote, depois de Lutero, o frade, negro o maior revolucionário da Renascença. Um matou toda a Idade Media católica e papal. O outro toda a Idade Média agressiva e andante. Um fez a reforma da Alma, o outro a reforma do Gosto. Um demoliu, vituperando. O outro ruiu um mundo com uma risada colossal. Mas essa risada retumbante do Meio Dia estrondeou nos quatro ângulos do globo, e fez estremecer os ossos do heróico rei Artur, e do imperador Carlos Magno, dentro dos seus túmulos de pedra. Era um novo mundo que surgia do caos. Era o mundo do Fausto, que, à janela do seu laboratório, começava a ver romper a aurora da Consciência. Eram as patas do cavalo de D. Quixote esmigalhando os ossos da velha Historia. http://purl.pt/920/1/cervantes-biografia/biografia-cervantes-1.html |


Miguel de Cervantes Saavedra o mais destacado escritor espanhol e uma das grandes figuras da literatura de todos os tiempos. Retrato de Eduardo Balaca.
Historia de D. Quixote de la Mancha / por Miguel Cervantes de Saavedra; [grav. de Marti]. – Lisboa: Typ. Universal, 1853
É certo que há escritos dele pululando de achaques e de tropos retóricos do tempo: obras que ele mesmo condena no D. Quixote, além de outras que não condenou: no entanto, a imitação é sempre a primeira fase do talento impaciente por se revelar, até que lhe despontem as asas: mas o que é indubitável é que um filho da Universidade dificilmente se emanciparia da rotina clássica, depois de se ter amamentado com o leite da estética de Aristóteles, ou da retórica de Quintiliano.
O próprio prólogo do D. Quixote é uma emancipação de rebelde a todas as usanças literárias dos autores de livros daquele tempo, uma revolução literária, feita pelo escárnio.
Na própria vida aventurosa, indisciplinada, boémia, achamos a origem e os germens do D. Quixote, que é a sonora gargalhada do Meio Dia à Idade Média, que tanto amou.
Miguel de Cervantes Saavedra (Alcalá de Henares, 9 de octubre de 1547-Madrid, 23 de abril de 1616), uma pintura de 1600 atribuida a Juan de Jáuregui y Aquilán.
A poesia porém, como instrumento de vida, render-lhe-ia escassamente, se aquele génio comunicativo, meridional, expansivo e extraordinário, a alegria mais irresistível e viva do universo, que não teve ainda precedentes na vivacidade verdadeiramente árabe, nem rivais na própria ironia gaulesa, essa sua alegria esfuziante e inopinada, que tinha a irresistibilidade duma força eléctrica, não atraísse em torno de si um círculo de amigos e de íntimos entre eles o filho do duque de Atri, D. Júlio Agua Viva, jovem teólogo e letrado, que o protegeu e se lhe afeiçoou. Levou-o para seu palácio, para lhe ouvir quotidianamente as chispas da palestra, e fê-lo seu escudeiro. Não se podendo separar de Cervantes, levou-o consigo para a Itália, ao ter de partir para a corte pontifical de Paulo V, de onde viera a Madrid, como legado do pontífice, mas onde fora tratado desabridamente pelo taciturno Filipe II, esse mocho coroado. Em companhia do jovem prelado italiano, erudito, Mecenas das letras, percorreu Cervantes o Piemonte, Milão, Toscana: todas as capitais italianas mais importantes, até chegar a Roma. O renascimento literário italiano devia-se ter insculpido muito na imaginação iriada do autor do D. Quixote: e essa renascença influiu tanto no seu espírito que se afirmou nas suas obras, e tornou dele a força mais irresistível da Renascença — o Bom Senso feito coveiro, que em nome da Razão e do Bom Gosto, escavou a vala, onde fez rolar, com o pé, a carcassa heróica da Idade Média.
O génio, porém, espanhol, cavaleiroso e amigo de aventuras, levou-o, sem causa maior, a sair do palácio do erudito e hospitaleiro prelado, e a ir sentar modestamente praça de soldado raso, na companhia comandada por Marco António Colonna, na expedição que Filipe mandava a Chipre, em auxílio da República de Veneza, que o turco sultão Selim ameaçava. Desde essa data, começa a sua odisseia de desventuras, e feitos militares.
Foi tão infeliz como soldado, como mal aventurado nas letras, como desditoso funcionário de Estado. Só foi verdadeiramente grande, e o seu génio reconhecido como indisputável, depois de morto: e isso, um século depois, pelos estrangeiros, por Lord Carteret, que se encarregou de mandar publicar a vida e a crítica à obra monumental de Cervantes, a pedido, dizem, que da rainha Carolina, esposa de Jorge II de Inglaterra. É à predilecção literária, e ao bom gosto de uma mulher culta, que se deve toda a aclamação unânime dos povos chamados neolatinos e dos setentrionais, em roda de um esqueleto esquecido. É possível que a Crítica fizesse justiça mais tarde: é, porém, certo que foi o bom gosto literário de uma mulher que a apressou: e este facto deve ser registado como mais um documento da radiosa influência do elemento feminino na Arte.
Como dissemos, Cervantes arriscou-se aos lances de mais arrojo, colocou-se nos postos mais avançados: tudo porém debalde para o seu progredimento militar, pois que não passou jamais de simples soldado. Mutilado aos vinte e oito anos na célebre batalha de Lepanto, em que D. João de Áustria, irmão bastardo de Filipe II, derrotou a armada dos turcos, que eram reputados invencíveis no mar, e foi o primeiro que começou a derrocada do seu prestígio marítimo, viu-se coagido a abandonar o serviço e a dirigir-se à corte, munido dos certificados mais honrosos, não só do próprio punho de D. João de Áustria, mas de todos os chefes sob que servira, a pedir a remuneração equitativa dos seus feitos e fadigas de soldado. D. João de Áustria indicava-o ao rei para comandante de uma companhia: o duque de Sesa igualmente encarecia os serviços de Cervantes. Porque ele, ainda depois de mutilado em Lepanto, por uma bala que lhe truncara o braço esquerdo, levara o mesmo ardor, com que fazia tudo, a alistar-se às ordens do duque de Sesa, e com ele passara a Génova, a Nápoles e à Sicília. Estes atestados honoríficos dos chefes de nada lhe valeram. Tendo-se embarcado numa galera para regressar à corte, esta foi aprisionada por umas galeotas marroquinas, que o levaram para Argel, para o serralho de Dali Mami. Depois de uma tentativa de fuga abortada, Cervantes passou para o harém do rei Azan, homem feroz, que infligia as maiores atrocidades aos prisioneiros, e em quem somente Cervantes, pela sua irresistível graça, capaz de desenrugar a fronte dos deuses infernais, pode achar algum favor. Umas poucas de vezes tentou evadir-se, e essas maquinações engenhosíssimas, empreendidas para recuperar a independência e a pátria, são quase tão curiosas e acidentadas como as aventuras do seu engenhoso cavaleiro, e atestam a imaginativa de Cervantes. Todas essas evasões abortadas faziam mais atrozes, porém, ainda os ferros do cativeiro mourisco: e as atrocidades refinavam. A cada um dos prisioneiros evadidos o rei Azan mandava infligir mil e tantos açoites: só Cervantes, o chefe da conspiração abortada, escapava ao vexame infamante, graças a um bom dito, a uma réplica a tempo, cheia de chispa, no momento do rei o enviar ao suplício. Era o génio a revelar se em tudo. Era a divina faísca genial a fazer curvar, involuntariamente, os profanos ante esse condão sagrado, sob que eles se sentem subjugados, tacitamente...
Durante muito tempo remou assim nas galés do rei Azan, até que aos esforços da família, às quantias oferecidas para o seu resgate pelos padres da Santíssima Trindade, a uma subscrição promovida pelos principais mercadores de Argel, e até à generosidade do próprio pachá Azan para com ele, que lhe perdoou o resto da soma que fixara, — soma que era tão onerosa que todos os esforços reunidos não chegavam ainda a cobri-la, — deveu enfim chegar a ver o amado sol das Espanhas, e as colinas, as humanas aguas do seu país. Depois de tantas façanhas e riscos, não desistiu, porém ainda, da vida dos arraiais e dos acampamentos, cheia de bulício e de acidentes inopinados, que se coadunavam com o seu temperamento eminentemente espanhol, aventuroso, vagabundo, descuidado do futuro.
Morte de Dom Quixote